
MISAEL COELHO DA SILVA
O HOMEM DO VIOLÃO DE OURO
“Qualquer dia desses vou descer as ruas, vou entrar nos bares
Vou beber os mares pra criar coragem e te procurar.
Vou pela Fradique cantando um bolero feito um Waldick, gentil, sincero,
Coração errante que só quer amar...”
(Na barra do seu vestido – Zé Geraldo e Zeca Baleiro)
Quase não dá para se precisar muito sobre a vida do violonista Misael. Conversando com Dona Zulima, sua esposa, e seu filho Ronaldo “Desenho”, fiz um apanhado de alguns fatos ocorridos e vividos pelo mestre do “violão de ouro”. Dona Zulima, do alto dos seus 86 anos e tantas batalhas enfrentadas pela vida, nem sempre consegue nortear as informações. Seu filho Ronaldo, vivendo um momento de grande euforia com a campanha política atual, às vezes “viaja”, e perde o tino. Mas a gente insiste em registrar aqui as histórias que esses nossos músicos (mesmo eles não tendo essa pretensão), escreveram ao longo de suas vidas. Ouvindo sobre o senhor Misael Coelho, lembrei-me das aventuras vividas pelos personagens de Boêmios Errantes e A Rua das Ilusões Perdidas, clássicos de John Steinbeck, que eu devorava na minha adolescência. Ele que escreveu: “Todos os nossos homens supostamente bem-sucedidos são doentes, com estômagos ruins e almas piores”. O boêmio da vez teve também uma vida errante. Funcionário da antiga MALÁRIA, depois SUCAM, deixou o emprego e seguiu na farra. Fato que hoje ainda maltrata dona Zulima de Souza Coelho, esposa fiel e honesta que, com a morte do companheiro, passou a cuidar da casa com o auxílio da sua inseparável irmã, Dona Josefa de Souza que até hoje é a amiga de todas as horas. E assim, com uma remuneração proveniente de aposentadoria, seguiu em frente, batalhando para criar seu único filho, Ronaldo, que logo cedo despertou para as artes plásticas, tornando-se um grande desenhista e pintor na cidade. Existem muitas obras espalhadas por aí, em salas, quartos ou muros com a marca Ronaldo Desenho. Porém, como o saudoso pai, ele também é “chegado” a uma boemia, e isso já lhe trouxe sérios problemas. Mas quando quer fazer bonito ele faz.

Misael (de chapéu), José Júlio
e Nelson Moreira
O jornalista Evandro de Sá Pereira, em seu livro Nas esquinas de Ceará-Mirim – coisas que o tempo levou!, conta que décadas atrás aqui na cidade, quando o fornecimento de energia elétrica (muito fraca), gerada por um motor a óleo, era finalmente interrompido, pontualmente às 23h, entravam em cena os boêmios de então: Xavier de Araújo, Nelson Moreira, e o que para muitos era “a Patativa do Vale”, Cirineu Campos (irmão do conhecido Chico Campos). Muitas serenatas eram feitas na cidade ao som do sax de Zé Gago e dos violões de Raimundinho e Misael. Muito amigo do senhor Galego, proprietário do conhecido “Salão Azul”, era nessa casa onde o músico passava boa parte do tempo a dedilhar seu “violão de ouro”, como era conhecido, talvez pela cor dourada do instrumento ou mesmo pela maestria do boêmio que, se não possuía o dom de cantar, excedia talento ao tocar. Segundo Waldeck Araújo, filho do saudoso Galego, circulava pela cidade uma cópia de uma fita cassete com uma seresta realizada no engenho Mucuripe, com Misael e outros músicos da cidade. O senhor Severino Xavier, num bate-papo comigo e Edvaldo Morais, informou que seu Chico Campos pode ter uma cópia dessa fita. Nessa conversa bastante proveitosa que tivemos com Xavier em sua residência, ele nos presenteou com um exemplar do seu livro Memórias da minha mente, onde relata em forma de poesia histórias de Ceará-Mirim. Como num desafio, perguntei ao poeta se lhe seria possível fazer uns versos sobre o antigo parceiro, ao que ele atendeu prontamente. Criou a primeira estrofe, em seguida pediu licença e saiu para “molhar a garganta”, voltou com um caju na mão e, bem mais inspirado, concluiu as suas rimas, que transcrevemos no final dessa matéria.

Misael é citado no livro
NAS ESQUINAS DE CEARÁ-MIRIM
de Evandro Sá Pereira
(Capa da 1a. Edição)









































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